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terça-feira, 18 de maio de 2010

Pelas terças de cortejo

Compreendem-se as tentativas de reinventar a tradição, uma vez por outra. Ora porque se acredita que os tempos mudam e é preciso “avançar”; ora porque se reconhecem erros que a tradição, por si só, não justifica; ora porque, até concedo, se quer marcar uma posição na história: de uma instituição, de uma cidade, de um país. Todas razões atendíveis, compreendendo a natureza do mundo e dos homens, e que, por vezes, determinam a mudança. Muito bem.

Compreenda-se, aliás, que a tradição impõe, frequentemente, uma visão conservadora das coisas, impede o progresso, anula, se não for corrigida, aqui e ali, muitas das grandes conquistas civilizacionais a que devemos prestar homenagem. Não há tradição - social, familiar, empresarial, política até - que deva resistir ao impulso de um sociedade cada vez mais igualitária, da paridade entre os géneros, da protecção dos trabalhadores, de uma democracia participativa. Eis o que justifica, afinal, o abandono das piores tradições, mas que justifica, também, a afirmação perene das melhores.

Partindo daqui e olhando para Coimbra, depois de mais uma Queima das Fitas, quero pronunciar-me contra a transferência do Cortejo para o dia de Domingo.

Porque o abandono da tradição, neste particular, não responde a um avanço social que, inexoravelmente, a ultrapasse; porque nela se não identificam erros grosseiros, em disputa com os nossos valores essenciais; porque mesma a vontade de marcar uma posição na história, a existir, não se cumprirá pela transformação de um Cortejo único, num mero desfile de Carnaval.

A crédito daquela mudança ouve-se, sobretudo, a necessidade de proporcionar às famílias, fora da semana de trabalho, a oportunidade de aplaudir os seus jovens doutores. Tanto mais que são muitos os que vêm de fora e ao tempo do cortejo acrescentam, necessariamente, umas horas de viagem.

Sucede que, na esmagadora maioria, nunca as famílias deixaram de encontrar forma de marcar presença na colorida festa dos estudantes. Um dia único, afinal, nas suas vidas. E sucede também que, nos tempos de hoje, são cada vez menos os estudantes deslocados em Coimbra, oriundos, como no passado, dos confins de Portugal.

Mas sucede também, e sobretudo, que o Cortejo não é, não foi nunca, uma festa dos estudantes e das suas famílias. O Cortejo é também uma festa da cidade, um reencontro consigo mesma, um ritual precioso que, como poucos, sublima a dualidade essencial de Coimbra. Perdê-lo naquelas tardes de terça-feira, tardes de encontro e partilha, de reconciliação, entre a Coimbra universitária e a Coimbra futrica é perder, afinal, uma parte substantiva da identidade Coimbrã.

Paulo Valério, hoje, no Jornal de Notícias.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

8 de Maio

Coimbra tem destas coisas. Aparentemente "posta em sossego", como num "engano de alma ledo e cego", sobressalta-se quando menos se espera. Muitos dos que passaram pelo antigo Largo de Sansão, no passado fim-de-semana, sabem do que estou a falar.

A 8 de Maio de 1834, as forças liberais, comandadas pelo Duque da Terceira, marcharam sobre a cidade, libertando-a do obscurantismo de D. Miguel. A 8 de Maio de 1874 e em homenagem àquele feito, o dito Largo de Sansão passou a chamar-se Praça 8 de Maio. A 8 de Maio de 2010 – no último Sábado, portanto – um grupo de cidadãos devolveu à cidade, 136 anos depois, aquele pedaço da sua História.

Mas o que se passou não foi apenas a aposição de uma placa. Não foi - pelo menos no seu sentido mais vago - um ritual, dos que se destinam a soçobrar na imprensa, para entretenimento do povo e exaltação dos políticos. Exaltou-se, pelo contrário, um significativo quadro de valores, de resto, pouco condizente com a mais habitual, e minúscula, política. A liberdade e a justiça social, a democracia plena. Com o recato próprio de quem resiste a fazer delas palavras vãs ou a dá-las, simplesmente, por adquiridas.

Há um longo caminho a percorrer, na luta pela cidadania inteira, mas a verdade é que estas comemorações do 8 de Maio fazem lembrar uma Coimbra que não se limita a ver passar as serenas águas do Mondego. A Coimbra que se indigna e se insurge, que se revolta e ergue ante a opressão, dando a cara pelas grandes causas. Aquelas que são, afinal, as suas causas de sempre.

A semente mais antiga de que há memória, encontrada em Israel, no Palácio de Herodes, o Grande, germinou em 2005, com a provecta idade de 2000 anos. Continha, na sua natureza, qualquer coisa que resistiu a milénios de história, às guerras, às pestes, às intempéries e às crises, para germinar, enfim, numa tamareira frondosa. Quando assisto ao que assisti no último sábado, não consigo deixar de pensar que Coimbra é uma semente que se há-de cumprir. Tudo chega para quem sabe esperar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Uma cidade saudável

Coimbra enche o peito de ar para falar de saúde. Debates e conferências, revistas, brochuras e discursos políticos, todos apontam para a nossa vocação como capital da saúde. Confesso que não tenho grande simpatia por esta ideia de que Coimbra deva elevar-se a “capital” do que quer que seja. Até porque o país – da saúde à chanfana – tem capitais que chegue. Apesar disso, concedo que a saúde possa orientar o desenvolvimento de Coimbra. Esse é, provavelmente, o nosso “filão” e um desafio que teremos de assuimir.

Apesar das resistências, as leis do mercado parecem ter tomado, razoavelmente, a política de desenvolvimento regional. E a verdade é que uma certa ideia de competição entre as cidades – mesmo quando temperada por filosofias de rede – se vem afirmando, de dia para dia. Nessa perspectiva, talvez a saúde seja mesmo o que nos diferencia, o que nos dá vantagem competitiva ante a vizinhança, mais ou menos próxima.

Sucede que a maior parte do que se tem dito e escrito sobre o assunto, umas vezes por distracção, outras por desconhecimento, quase sempre com enorme dose de voluntarismo, é curto no modo como perspectiva a saúde e o seu potencial para o desenvolvimento de Coimbra.

Os hospitais e o ensino da medicina; a generosa percentagem de médicos per capita; uma meia dúzia de alusões vagas à biotecnologia ou à indústria farmacêutica, fica por isto mesmo, sem grande consequência, o que temos dito a respeito. Nada que, inapelavelmente, nos distinga, nos dias de hoje, se olharmos bem em redor.

Num certo sentido, não parece que Coimbra queira ser a tal capital da saúde, parece mais que se pretende ver reconhecida como essa capital. Coisa que não promete grande progresso, antes aguarda um troféu, talvez mesmo uma pedra tumular com a inscrição “aqui jaz Coimbra, capital da saúde”.

Acredito que, hoje, a afirmação de Coimbra na saúde já não depende apenas das nossas infra-estruturas hospitalares, dos nossos especialistas e de alguns wishful thoughts, sobre a biotecnologia. Estamos, em tudo isso, demasiado próximos de outros players, como agora se diz. O passo em frente, far-se-á, talvez, integrando a saúde num verdadeiro projecto de desenvolvimento, e integrando-a em todos os aspectos desse projecto.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um ambiente físico limpo e saudável; um ecossistema estável e sustentável; alto suporte social, sem exploração; alto grau de participação social; necessidades básicas satisfeitas; acesso a experiências, recursos, contactos, interacções e comunicações; economia local diversificada e inovativa; orgulho e respeito pela herança biológica e cultural; serviços de saúde acessíveis a todos; também, claro, alto nível de saúde, são as condições para que uma cidade se torne “saudável”. E é isto, provavelmente, que devemos perseguir. Uma cidade saudável, mais do que uma qualquer capital da chanfana…perdão, da saúde.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Até quando?

O diagnóstico está feito. É o que se ouve nos muitos debates, mesas redondas, colóquios e outros momentos onde se vai reflectindo sobre Coimbra. No urbanismo e na cultura, na economia e no emprego, parecem estar alinhadas as ideias fundamentais. Grande parte, quer das fragilidades, quer das oportunidades, são conhecidas e vêm sendo enunciadas, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Tarda, porém, a mudança necessária.

Na cultura, prevalece uma ideia de declínio, mesmo quando não comprovada pelos factos. A afirmação da nossa história colectiva, do nosso património, da excelência de muitos dos nossos agentes culturais, não parece bastante para que deixemos de nos medir com o vizinho do lado, sem nos sentirmos, de algum modo, diminuídos.

No urbanismo, todos os diagnósticos apontam para a necessidade de regenerar o Centro Histórico, não só na dimensão de recuperação do espaço construido, mas induzindo a sua transformação nas dimensões económicas e sociais, na promoção da qualidade da habitação e do ambiente urbano. Menos especulação, melhor ordenamento, num espírito mais inclusivo, é o que reclamam os tais diagnósticos, à espera de uma cidade segura e sustentável, com habitação digna e acessível para todos.

Na economia, não há quem não avance com a urgência de tirar maior proveito da universidade, incorporando tecnologia num novo tecido empresarial, um que possa absorver a mão-de-obra qualificada que, todos os anos, abandona a cidade. Havendo ainda os que defendem a necessidade de atrair investimento “puro e duro”, mesmo sem que a “benção” da universidade nos acalme o preconceito, aquele que Coimbra alimenta, há vários anos, em relação aos empresários de um modo geral.

Em qualquer dos casos, sobra em diagnóstico o que nos falta em solução. E Coimbra mantém-se, há anos sucessivos, contemplando os seus problemas, retida nessa espiral depressiva que, uma e outra vez, não leva a lado nenhum.

Às vezes, acho que não se avança porque, verdadeiramente, não se quer avançar. Porque se temem as consequências de uma mudança a sério na ordem estabelecida. A mudança necessária – no urbanismo e na economia, na cultura e na política, já agora – dá demasiado trabalho e ameaça, de modo particular, os mesmos de sempre. À mudança urgente, por vezes até radical, que nos faz falta, contrapõe-se, demasiadas vezes, “a mudança responsável”. Até quando?

Paulo Valério, hoje, no Jornal de Notícias

terça-feira, 6 de abril de 2010

Esfregar as mãos…

Os partidos políticos em Portugal, pelo menos os chamados “partidos de poder”, desenvolveram uma técnica bizarra para ganhar eleições. Décadas a fio acostumados à alternância democrática – o “ora vais lá tu, ora vou lá eu” – convenceram-se de que esperar e esfregar as mãos é o caminho certo para voltar, uma e outra vez, ao poder.

É a perspectiva de quem acha que o poder é uma predestinação cósmica, pelo menos para o PS e para o PSD, pelo que não vale a pena gastar muito tempo a discutir quais as razões que levam o povo a não votar num ou no outro partido, em determinado momento histórico. Basta, pois, aguardar pacientemente na paragem do autocarro e esfregar as mãos para que não arrefeçam.

Em Coimbra, no contexto da campanha que há-de eleger o próximo presidente da Concelhia do PS, ouço muito falar em fim de ciclo, mas ouço pouco sobre o que há-de ser o ciclo seguinte. E confesso que me incomoda - que me entristece, até – esse discurso.

Ao PS Coimbra não basta comprazer-se com o suposto “fim de ciclo” PSD, coisa que ainda carece de comprovação. Como não lhe serve, desprestigia-o até, resignar-se à ideia – muito infeliz – de que as eleições se perdem, não se ganham. Eu, ao contrário do que tenho ouvido, ambiciono um PS Coimbra que, de facto, vença as eleições.

Que as vença porque foi capaz de fazer a contrição necessária, respeitando os cidadãos, tentando perceber em que é que falhou e emendando a mão, lá onde for necessário. É um mau começo olhar para as derrotas como momentos de sublime inustiça e desprezar a ponderação dos eleitores.

Que as vença porque tem um projecto mobilizador para Coimbra, capaz de convocar a maioria dos cidadãos e de os fazer acreditar numa nova cidade, correctamente ordenada, com oportunidades profissionais, um farol de cultura, merecedor do respeito de todos. Isto só se fará com organização e promovendo uma discussão séria. É perigoso insistir num programa do PS para o Concelho que apenas reproduza os clichés apressados das sucessivas eleições que perdemos.

Que as vença porque foi capaz de se reconciliar com os conimbricenses e, sobretudo, de recuperar a sua confiança. E isto é coisa que não se fará com proclamações estéreis, antes pela conduta diária dos socialistas de Coimbra, pela coerência que saibam ou não assumir, nos momentos decisivos.

Quem se pendurar no “fim de ciclo” para ganhar eleições, esfregando pacientemente as mãos na paragem do autocarro, habilita-se apenas ao que já sucedeu nos últimos dez anos: ficará apeado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Regressar à política

Faz hoje, precisamente, uma semana, que se encheu o Café Santa Cruz em Coimbra.  A noite não era de fados. Nem de porco no espeto ou de bifanas no pão. Pé ante pé, pelo seu próprio pé, os socialistas de Coimbra desceram à Baixa para discutir urbanismo e ambiente. E por ali estiveram, três horas consecutivas, sem sinal de enfado, à procura de como pode a nossa cidade ser "mais feliz". À saída, talvez não tivessem todas as respostas. Mas todos se sentiram, de alguma forma, mais perto delas.

Porque a noite não tinha sido de lugares comuns. Nem os convidados, nem a organização se perderam pelos caminhos, muito usuais, da correcção política. Não foi um debate de meias palavras, de ideias veladas ou de reservas mentais. Foi, podemos dizê-lo, uma noite clara. Da falta de planeamento à mera falta de gosto. Sobre a especulação em geral e sobre a corrupção em particular, pouco ficou por dizer. E semeou-se nos presentes a vontade de construir uma cidade nova.

Mas também porque fazia falta que alguém pusesse o debate na ordem do dia. Ou em primeiro lugar na ordem de trabalhos, para ser exacto.

É que há pequenas práticas, no seio dos partidos políticos, que em absoluto comprometem a sua missão. E uma delas é, creio, a insistência em colocar aquilo a que chamam "análise da situação política" como ponto último das reuniões.

Para quem não conhece o ritual, as reuniões partidárias começam sempre com, pelo menos, meia hora de atraso. Arrancam, depois, para mais meia hora de informações. Se tudo correr bem, o que não é comum, seguem para duas horas de estimulantes discussões estatutárias e regimentais. Até que, por fim, não havendo incidentes de maior, chegam ao seu ponto último: a quase sempre enigmática "análise da situação política". Claro que não se analisa coisa nenhuma. É tarde. A sala reduz-se a menos de metade. E a política fica adiada, para uma próxima oportunidade.

Em Coimbra, chegou a hora de regressar à política. E no que respeita ao urbanismo, resulta clara a necessidade de qualificar os novos bairros, revitalizar o centro histórico, melhorar as acessibilidades e valorizar, respeitando, os recursos naturais. Esta é, talvez, a primeira condição para uma cidade de oportunidades, que fixe a população e seja geradora de riqueza. A Coimbra com futuro, que o passado não soube cumprir.

terça-feira, 16 de março de 2010

Regime de cultura

No segundo sábado de cada mês, a associação Arte à Parte e os estudantes do curso de Estudos Artísticos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, levarão à Alta Coimbrã “novas paisagens sonoras”. A iniciativa chama-se Mercado Quebra-Costas e promete quebrar a espinha dos mais conformados, na cultura Coimbrã.

Artesanato, moda e gastronomia; música, teatro, poesia e dança. A “sociedade civil” a apontar o caminho, mais uma vez, quando a “sociedade política” caminha, aparentemente, para lado nenhum. E para dizer a verdade, ainda bem que é assim. Ao contrário do que às vezes se diz, a cultura não é coisa que se decrete.

De facto, muita da discussão sobre cultura nas cidades, especialmente em Coimbra, pressupõe o poder autárquico como uma espécie de promotor geral da oferta. “A Câmara devia fazer mais isto”, “o vereador devia fazer mais aquilo”. A ideia é a de que os políticos definem o “quem”, o “como”, o “quando” e o “onde” da cultura. A cultura urbana como reflexo das preferências de quem nos governa e temperada, talvez, por esta ou por aquela contingência eleitoral. Convenhamos que não é uma grande visão do futuro.

Pelo contrário, acho que os políticos devem fazer menos e deixar fazer mais. Em matéria de cultura, dispenso uma autarquia que seja, essencialmente, promotora de eventos. E dispenso, mais ainda, uma que se transforme em empresa de casting, pronta a seleccionar quais os projectos que vêem ou deixam de ver a luz do dia. Os responsáveis políticos, neste domínio, devem acarinhar a iniciativa, estimular a diversidade e, se possível, proporcionar aos agentes culturais – a todos eles – condições de incubação dos seus projectos.

A cultura é um daqueles sectores em que a esquerda – democrática, entenda-se – deve clamar por menos Estado. Não por menor intervenção do Estado, mas por uma intervenção pública que seja o garante da diversidade, ao invés de ser um seu espartilho. Acredito num regime de cultura. Mas rejeito, à partida, uma cultura de regime.

Um ambiente de liberdade criativa e de igualdade de oportunidades, eis o que se pede a Coimbra e o que a compromete, seriamente, quer com a cultura, quer com a democracia. Tudo o resto, da mera passividade ao dirigismo político, passando pela toponímia rodoviária, não é cultura, é propaganda.

Paulo Valério
Jornal de Notícias - 2010/03/16

terça-feira, 9 de março de 2010

Capital

“Se insistirem em pôr-me rótulos, chamem-me primeiro ser humano, depois pacifista e por último cantora folk”. Eis a abertura de uma entrevista simpática a Joan Baez, trazida à estampa pela “Actual” da última semana. Abertura curiosa, se observarmos ainda a crónica semanal de Ricardo Costa, ao caderno principal do Expresso, com o título ”ideias feitas”. Para o cronista e director-adjunto do semanário, os debates com os candidatos à liderança do PSD mostraram que, apesar dos rótulos que se lhes pegaram, “Passos Coelho não está mal preparado”, “Rangel não é o Jack Bauer do PSD” e “Aguiar Branco não tem vocação para a santidade”.

É verdade, o mundo anda cheio das “ideias feitas” de que fala o Ricardo Costa e dos “rótulos” a que a alude a Joan Baez. E é verdade também que, salvo junto de algumas mentes mais esforçadas, é difícil descolar da testa esse tipo de pré-conceitos. Talvez porque todos encerrem, afinal, uma ponta de verdade. Talvez porque dê muito trabalho distinguir o nome da coisa.

Coimbra, “cidade dos estudantes”, “capital do conhecimento”, “capital da saúde” ou “cidade museu"... concedo na boa intenção de quem se lembrou destas honrosas alcunhas. O objectivo seria, talvez, dar coesão à identidade coimbrã, projectar-lhe uma vocação estratégica ou, como se diz agora, “vender-lhe a marca” - não há mal nenhum com isso. Porém, creio que Coimbra se levou demasiado a sério no assunto e anda há demasiado tempo refém daquelas “ideias feitas”.

As “capitalidades de Coimbra” – universitárias, sanitárias ou culturais – deixaram há muito de lhe apontar um rumo e passaram, apenas, a estreitar-lhe o caminho. Coimbra deixou de se inspirar nelas e passou a suspirar por elas. E todo o potencial libertador que lhes tenha cabido um dia, transformou-se, afinal, numa prisão.

A cidade deixou de olhar para as vocações “universitária”, “cultural” ou “medico-científica” como meras oportunidades e passou a vê-las como últimas oportunidades. Como tábuas de salvação que, por ironia, a paralisam. Se não aconteceu até hoje, não vejo que se possa esperar grande progresso em Coimbra, a crédito dos chavões do passado. E já nem é certo que eles nos distingam assim tanto, no Portugal do presente.

Talvez tenha chegado a hora de inventar novas “capitais”. Talvez Coimbra deva abrir-se à participação de todos. Talvez deva ser livre para escolher o seu destino. Deixando todas as portas em aberto. Soltando-se de velhas amarras e levando a imaginação ao poder. Talvez Coimbra deva voltar a ser, apenas, capital de si própria.
Paulo Valério, no Jornal de Notícias
2010.03.09

terça-feira, 2 de março de 2010

A mudança assim-assim

André Freire e José Manuel Leite Viegas, do ISCTE, promoveram, segundo li, o estudo “mais exaustivo que compara as opiniões e percepções entre eleitores e eleitos jamais feito em Portugal”. Mas as suas conclusões, diga-se, estão inscritas na consciência do regime, muito antes de serem estampadas pelos investigadores de Lisboa. A confiança dos portugueses na democracia bateu fundo, é o que se conclui. Chegou mesmo ao nível mais baixo desde 1985.

Os eleitores sentem-se mal representados, não confiam nos políticos e não confiam, sobretudo, nos partidos. Sentem-se enganados, mas sentem-se, sobretudo, cansados. A renda da casa, as contas da água e da luz, a escola dos miúdos, eis o que os ocupa. Ocupa-os mais do que a “salvação do regime”, coisa em que não acreditam e que, verdadeiramente, já nem esperam. E como se ocupam disto tudo, ficam sem tempo para se pre-ocupar. Talvez o país político ainda não tenha percebido que está a falar sozinho. Perceberá, talvez, quando ficar sozinho: é cada vez maior o número de portugueses que sai do país para procurar emprego.

Em Coimbra, a agonia da Ceres e da Poceram, como o fecho da Real Cerâmica, parecem, de facto, não apoquentar ninguém. Os jovens que todos os anos abandonam a cidade, à procura de emprego – muitos para Cantanhede, Aveiro ou Viseu – não recebem do município mais do que a proverbial nostalgia coimbrã. A carestia da habitação e a degradação da baixa, para além de animarem umas palestras inconsequentes, não merecem a apresentação ou execução de uma única medida concreta. O facto de a cidade estar a ser espoliada dos seus serviços públicos, com fundamentos que suscitam as maiores reservas, abre caminho à manipulação do PSD, ao mesmo tempo que suscita reacções tímidas, na oposição. Não é difícil imaginar que o tal estudo do ISCTE, feito em Coimbra, não lograria resultados diferentes.

Mas talvez uma parte da solução resida, exactamente, na capacidade de melhorar o sistema à escala local. A maior proximidade entre eleitos e eleitores, a melhor percepção de eficácia das medidas tomadas, a participação dos cidadãos nos processos de decisão, tudo concorre para que ao nível municipal seja, talvez, mais fácil, melhorar o sistema. Assim os políticos saibam ser responsáveis, coerentes e credíveis.

Ao PS, no Concelho de Coimbra, caberá escolher entre ser parte activa numa verdadeira mudança ou ser cúmplice de uma mudança na continuidade. Ser cúmplice daquilo a que alguns chamarão uma “mudança responsável”. Há quem diga que, às vezes, é preciso mudar qualquer coisa, para que tudo fique na mesma. Eu não quero uma mudança assim. Muito menos uma mudança assim-assim.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Elísio Estanque no "Público"

Elísio Estanque, sociólogo e apoiante da candidatura "Coimbra com Futuro", reflecte sobre política de cidades, no jornal "Público".

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vamos falar de habitação

O bastonário da Ordem dos Engenheiros veio a Coimbra para manifestar a sua descrença quanto ao regime da reabilitação urbana. "Lobbies e jogos de interesses", eis o que lhe vem à cabeça quando pensa no assunto. Não é o único. De facto, basta olhar para Coimbra para perceber que a expansão urbanística e a reabilitação urbana avançam, estranhamente, em velocidades distintas.

Enquanto florescem os Jardins do Mondego, fenece a Alta Coimbrã. Enquanto se erguem condomínios na Portela, a Baixa vai ruindo sobre si. Quanto a isto, meia dúzia de lugares comuns e a recomendação velada de que nos sentemos, à espera que passe. Abate-se um silêncio pesado sobre Coimbra, de cada vez que o assunto é a política de habitação. E é preciso – é urgente – que deixe de ser assim.

Mas por que razão cresce desenfreadamente a construção nova em Coimbra – como no resto do país, acrescente-se – enquanto o centro se degrada, acoitando delinquentes, fazendo campear a insegurança e retirando, sobretudo aos jovens, a oportunidade de uma habitação condigna, a preços controlados? A explicação, em termos gerais, é simples: o fenómeno da construção civil e o seu desenvolvimento, confundem-se com a própria história do poder local democrático. No caso de Coimbra, para além da especulação e das suas consequências no ordenamento urbano, estamos a forçar o abandono dos mais jovens, não só por falta de emprego, mas também porque são poucos, muito poucos, os que podem comprar uma casa na cidade. Coimbra ameaça tornar-se um imenso condomínio privado, ao alcance de meia dúzia de famílas e vedado à generalidade dos conimbricenses.

Chegados aqui, temos a responsabilidade colectiva de decidir qual o caminho que pretendemos seguir: se o de uma política urbanística que se limita a caucionar o que os especialistas chamam windfall gains – a valorização exponencial dos solos, por via de novos loteamentos, sem verdadeiros "custos de produção"; se a a opção por distribuir, afinal, oportunidades de habitação condigna para todos, negando o pendor casuístico da maior parte dos instrumentos de ordenamento em vigor e servindo o bem-estar dos cidadãos, em geral. Eu escolho, sem reservas, este segundo caminho.

Para começo de conversa, é imperativo travar fundo nos novos projectos de loteamento e assumir, desde já, a prioridade de gerar uma oferta de arrendamento público, que faça renascer a cidade, lá onde só restam escombros e o património imobiliário de "ninguém". Defender, com coragem, estes e outros desígnios, é o único caminho sério para os socialistas, quer na discussão do PDM, quer na proposição de um verdadeiro Plano Local de Habitação. Trata-se de escolher entre a Coimbra das oportunidades para todos e a Coimbra das oportunidades para os mesmos de sempre. Escolher, afinal, entre a Coimbra do passado e uma Coimbra com Futuro.

Paulo Valério no JN

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O poder é solúvel

Eu gosto do professor Marcelo Rebelo de Sousa. A sério que sim. Tenho uma predilecção por gente inteligente, com um pensamento estruturado e com ideias próprias. São poucos, no espaço público – particularmente na política - os que reúnem essas condições. Há muitos espertos que, no contexto certo, desfilam pela passarela das vaidades que alimentam o mundo. Normalmente, desconexos no pensamento, prolixos e incapazes de verter duas ideias em português correcto, ainda que sem veleidades de estilo. Porém, e na maior parte dos casos, deviam ater-se a abrir o piano – alguns apenas a carregá-lo – ao invés de se aventurarem pelo marfim, logo a quatro mãos, como é costume fazerem.

E é por isso que, apesar dos pesares – o professor não é do meu partido, está longe de ser um comentador isento e fala sobre demasiadas coisas ao mesmo tempo – nutro por ele uma certa admiração. Em parte porque, ao contrário do que acontece com as cabeças duras, acredito ser sempre possível mudar, pelo convencimento, um homem inteligente.

Li, pois, com atenção, a entrevista que deu no passado sábado a um jornal diário regional. E, particularmente, o modo como comentou o desempenho do presidente da Câmara de Coimbra. Dessa leitura, sai reforçada a ideia de que o professor é, de facto, um homem inteligente.

É que, nem mesmo eu – que às vezes me dedico a não dizer coisa nenhuma em duas milenas de caracteres – seria capaz de um nó cego como o do professor, quando teve que comentar os méritos do nosso presidente da Câmara. “Carlos Encarnação virou Coimbra para o século XXI, recriando um centro político e ultrapassando clivagens muito fundas entre direita e esquerda.”, foi o que disse Marcelo Rebelo de Sousa na ocasião.

Ora, o que é engraçado não é só perceber que esta fórmula, no caso concreto, ilude a incompetência política do dr. Encarnação e o definhamento a que deixou chegar a cidade de Coimbra sem, ainda assim, o deslustrar. Engraçado é perceber que o professor, não apenas conseguiu isso, como desenvolveu uma fórmula apta a comentar todos os autarcas sem obra feita, mas a quem deva ainda algum tipo de simpatia.

Resta perguntar se os desempregados de Coimbra se devem sentir particularmente comprazidos pelo etéreo contributo do dr. Encarnação para a viragem do século. Ou se a tal ultrapassagem de clivagens entre esquerda e direita deve compensar o facto de, à nossa volta, nos ultrapassarem, pela esquerda e pela direita, todos os dias. Mas isso não preocupa nem o professor Marcelo, nem o dr. Encarnação.. É o que acontece quando já nem se acredita que o poder é, de facto, solúvel.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Melodias sublimes

Encheu-se de povo o Gil Vicente, faz na próxima quinta-feira uma semana. Não era uma assembleia magna, nem um comício, nem o lago dos cisnes, nem coisa do género. Era Coimbra às ordens da sua consciência, Coimbra a dizer que está viva e que desperta quando é preciso, quando vale a pena, quando tem mesmo que ser. A Saúde em Português convidou vários músicos da região para um concerto de apoio às vítimas no Haiti e desafiou os conimbricenses a estar presentes. A resposta não podia ter sido mais esmagadora: uma casa cheia e um concerto inesquecível.


Naquela noite – com um frio de fazer bater os dentes – não foi a Coimbra resignada, nem a Coimbra da lamúria, que sairam à rua. Um por um, os que estiveram presentes no Gil Vicente – e muitos dos que não puderam estar - foram aqueles que não se conformam: nem com as injustiças, nem com a indiferença. Olhos nos olhos, os olhos que se cruzaram no foyer denunciam uma cidade de gente solidária, gente de convicções, gente que se reconhece e que se surpreende, até, com a sua própria força. Como eu, creio que foram muitos os que, vendo aquela casa cheia, percebendo que foi possível arrecadar mais de sete mil euros para ajuda humanitária, sentiram um calafrio. E perceberam como têm força os que se juntam pelas causas certas.


É sempre assim. Como um vulcão adormecido durante séculos e que, de repente, acorda para arrasar tudo à sua volta. Também como um terramoto, que em escassos segundos põe termo a uma quietude milenar e nos recorda que nada é eterno. Em Coimbra, a resposta ao terramoto no Haiti foi o sobressalto da sua própria natureza: a Coimbra que esteve no Gil Vicente não foi a Coimbra que desiste, foi a Coimbra que acredita; não foi a Coimbra que se apaga no tempo, foi uma Coimbra que se ergue e existe. Uma Coimbra generosa, solidária, mas também uma Coimbra de cultura.


Brigada Victor Jara, Gerações, Cordis, Inês Santos, Rui Pato, entre outros, só uma amostra da cidade das artes que fervilha por aí. Que fervilha e que fervilhará, até ferver de vez e nos lembrar que não é possível "viver habitualmente", todos os dias, para todo o sempre. Ao contrário do que muito vaticinam, e apesar de tudo, Coimbra mantém uma especial capacidade de nos surpreender. E lembra-nos que o silêncio é o leito onde se deitam as melodias mais sublimes.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Responsabilidades

Parece que vai fechar a delegação de Coimbra da agência Lusa. Nada de especial se pensarmos que, nos últimos anos, perdemos as Direcções Regionais da Economia, do Instituto Português da Juventude, da Agricultura ou do Instituto de Desporto de Portugal. Nada que surpreenda se pensarmos que, em simultâneo, fecharam portas a POCERAM, a Real Cerâmica ou a Marcopolo, só para dar alguns exemplos. Mais uma maçada, portanto, que torna estas primeiras linhas especialmente enfadonhas, é certo, mas altera pouco o que já sabemos: Coimbra equilibra-se, a custo, sobre um plano demasiado inclinado.

A respeito, vão-se ouvindo as vozes do costume. Umas, que a culpa é do Governo, que não gosta de Coimbra. Outras, que a culpa é da Câmara, que tem afundado a cidade. Ambas, na simplicidade, quase pueril, dos seus argumentos, interessadas em fazer valer as normais disputas entre PS e PSD, mais do que em revelar as razões fundas da nossa agonia. Ora, não pretendo eu, na "simpatia" da minha "juventude", cavar mais fundo esse terreno. Mas, contando com alguma condescendência, atrevo-me a dizer duas coisas: uma, que têm ambos razão. Outra, que não têm razão nenhuma.

Tenho pouco jeito para teorias da conspiração e obrigo-me a resistir-lhes, vai para uma mão cheia de anos. Mas começo a ficar impaciente com esta sucessão de "lamentáveis coincidências", talvez conjugações astrais, que apoucam Coimbra semana após semana e que, se não têm culpados, terão pelo menos autores. Não me parece interessante integrar o assunto na categoria das coisas que ninguém faz, mas que aparecem feitas. E vai sendo tempo de pedir responsabilidades, quer ao Governo, quer à Câmara. Se não têm culpa, que encontrem os culpados. Se não carregam a culpa toda, pois que a dividam entre si.

Mas o apuramento dos culpados, mesmo o seu sacrifício na fogueira, não resolveria, por si só, o problema. Governo e Câmara, para este efeito, são reflexo de uma cidade que não mudará enquanto não assumir, ela própria, as suas responsabilidades. Cabe-nos a todos, de todas as idades e em todos os partidos, defender os interesses de Coimbra mas, sobretudo, afirmá-la por inteiro, com excelência, em várias frentes:
na ciência, na economia, na cultura e – muito especialmente – na política. Nenhum vento será favorável, se não soubermos para onde vamos. E se, depois de sabermos, não formos mesmo.

Paulo Valério no JN